O absurdo
por Larissa Prado
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De qual janela?
 
 
Quando abro a porta, Maria está sentada tomando seu café adocicado. Eu preciso de um extraforte porque minha cabeça parece um imenso saco cheio de chumbo prestes a estourar, ela está cedendo. A minha Maria sequer levanta os olhos para mim, ela está me ignorando como todas as outras vezes. Dando o seu gelo habitual. Talvez amanhã fale comigo porque em algum momento vai precisar falar comigo. Nenhum de nós vai lembrar de hoje ou dos três dias que passei bebendo.

Eu dou um beijo no topo da sua cabeça, seu cabelo tem cheiro de creme de pentear de abacate. Maria emplastra os cabelos com isso porque não gosta dos seus cachos e foi justamente por causa deles que me interessei por ela há 5 anos. Eu me sento na cadeira à sua frente e encaro um pão branco e cascudo. A minha barriga reclama, não posso nem pensar em comer algo. Preciso só de um café extraforte, mas o da Maria é muito doce.

O silencio da cozinha é interrompido pelo som dos carros passando na rua, moramos no centro da cidade onde o movimento nunca para apesar de permanecermos estáticos na mesa. Maria está olhando para algum ponto entre a pia e o fogão, não pisca, parece hipnotizada. Ela segura a xícara com as duas mãos e enquanto a fumaça passeia pelo seu rosto eu sinto uma vontade inexplicável de abrir a boca e chorar até desidratar.

Fico calado, não tenho o que dizer apesar de muitas palavras retumbarem na minha cabeça. Estou me sentindo tão fraco que deito a cabeça sobre a mesa, imagino-a como um pão branco e cascudo que não tem quase miolo dentro. Por Deus, estou prestes a vomitar toda cerveja barata que andei bebendo. Não sei porque bebo.

Finalmente, levanto a cabeça, Maria não está mais sentada. Ela está de costas na pia olhando a rua pela janela. Ainda segura a xícara com as duas mãos.

- Maria, - eu digo com uma voz que não sai de mim – as coisas vão mudar, eu prometo.

Ela não fala nada, nem parece respirar. Fica assim feito estátua olhando o único movimento que nos cerca que é o dos carros na rua. A minha voz soa trêmula como se eu fosse desabar mesmo no choro, mas é apenas arrependimento. A voz não sai de mim assim como eu pareço ter deixado minha alma em algum canto no trajeto do bar até em casa.

- Maria, eu te prometo.

Ela desmancha no ar, desaparece. Não lembro que dia é hoje até meus olhos encontrarem o calendário na porta da geladeira marcando a missa de sétimo dia. Maria, de qual janela você está observando o movimento agora?
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 10/01/2019
Alterado em 19/07/2019
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