O absurdo
por Larissa Prado
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Vivo ou morto
 
 
– A pressão está crescendo, depois que aumentaram a recompensa ele vai ser caçado em todos os lugares que pisar. Está encurralado e vai vir até nós correndo e ganindo procurando ajuda. É o que cães fazem, pequeno Joe.

A boca se movia abaixo de um bigode cheio dizendo ao garoto que estava sentado do outro lado da mesa limpando os tambores de seu revólver. Era comum usar Colt45 e era um desse tipo que o outro erguia e checava a condição de disparo.

– Não tenho tanta certeza, não dá pra subestimar o Nick. Viu o que aconteceu da última vez que fez isso?

Joe dirigiu os olhos para a ausência dos dois últimos dedos na mão de Jack que segurava o copo de uísque. Jack, por sua vez não gostou disso e encarou o irmão mostrando seu descontentamento no olhar.

– A sorte só bate na porta uma vez. Aquilo foi sorte.

– Não, Jack. Ele foi mais rápido que você. Isso não é apenas sorte. É habilidade.

Jack não perdeu tempo contradizendo Joe, pois, Nick era habilidoso de fato, mas aquilo tinha sido mais do que isso. Naquela ocasião, Nick estava bêbado demais para acertar os dedos de Jack na escaramuça, foi apenas um golpe de sorte. Jack pensava enquanto terminava o último gole do seu uísque puro que a sorte de alguém não podia durar para sempre.

Os dois irmãos deixaram o bar e subiram em seus respectivos cavalos amarrados do lado de fora, a poeira subiu rodopiando em densas nuvens quando os cascos sapatearam levando-os embora. Partiram para a região desértica que separava a cidade A da cidadezinha B. Ninguém se importava com nomes de cidades em meio ao oeste selvagem, a não ser com os nomes de grandes centros comerciais que se formavam por conta das estações de trem.

O cartaz que Joe guardava esboçava o retrato falado de Nick “Procurado Vivo ou Morto” sobre uma recompensa graúda. Abaixo do retrato e do preço colocado sobre a cabeça do homem tinha a informação da última localização na qual ele foi visto. Não era apenas a recompensa que interessava Jack, acima de tudo era uma questão de vingança.

Nick eliminara o líder do bando que Jack considerava como um pai, além de tudo levou embora Mary, sua esposa. A rixa entre eles se tornara um espinho afiado em seu orgulho. Nunca gostou do rapaz, Nick tinha um ar de superioridade e um olhar arrogante e debochado. Trazer o seu cadáver para o xerife era mais do que uma questão financeira, se tornara uma questão de honra. E quanto a Joe? O pequeno Joe não passava de um jovem recém-saído da puberdade e sua função se resumia a acompanhar o irmão para onde fosse, era tudo o que sabia fazer, ser a sombra de Jack.

Durante a travessia pelo deserto, os irmãos encontraram vestígios de acampamentos de onde Nick havia passado as últimas noites. Estavam na trilha certa. Em uma noite fria ao redor da fogueira, Joe segurava o caneco de alumínio tentando aquecer os dedos expostos através das luvas surradas.

- Acho que estamos bem perto de encontra-lo, Jack, antes que consiga chegar até o rancho Greenvile. Temos que ficar espertos, Nick é cheio de emboscadas, pode ser até que esteja fazendo os rastros de propósito.
Taciturno, Jack olhava as chamas com um ar abatido.

- Às vezes me pergunto se Mary não foi embora porque quis.

- Mary? Claro que não, Jack. Ela era feliz conosco, Nick a sequestrou porque é um verme atrevido que fica tentando te afrontar.

- Não sei, Joe. Não sei o que acontecia no acampamento enquanto eu estava fora viajando.

Joe se calou, não podia afirmar que Mary e Nick não tinham nada porque, de fato, os dois se tornaram muito próximos desde que Nick fora admitido no bando. Quando se recolheram cada um em seu saco de dormir, Joe escutou o irmão orando. Tremeu dentro da sua manta, aquela era a prece que Jack fazia antes de usar suas pistolas.
 
A manhã chegou trazendo um sol forte, os irmãos acordaram e depois de um café reforçado seguiram adiante. Por longas horas não avistaram mais nenhum rastro de Nick, Jack estava mais impaciente e desiludido a cada minuto. Nick talvez fosse um homem de sorte inesgotável.

O sol estava alto anunciando meio-dia, Jack fez o cavalo diminuir o ritmo se limitando a um trote suave. Estava prestes a chamar Joe para que encontrasse um local à sombra para repousarem quando escutou o chamado dele à frente. Ele sacou a pistola com rapidez e agitou o cavalo para que arrancasse até o som da voz do irmão.

Joe estava abaixado, o chapéu jogado para o lado sombreava parte do seu rosto, Jack gritou o irmão que permaneceu imóvel. Com a pistola erguida, Jack desmontou do cavalo e aproximou.

Azul era sua cor preferida, quase todos vestidos e camisolas eram de tons azuis, combinavam com seus olhos. O vestido estava misturado à poeira, o azul manchado de terra parecia outra cor, um tipo de cor morta. Jack avançou na direção do vestido que Mary usava quando fugiu e o pegou, não havia mais o cheiro da mulher naquele resto de roupa. Ele olhou para Joe, mas não foi o vestido da cunhada que deixou o rapaz perplexo, seus olhos fitavam outra coisa.

O vestido escorregou pela mão de Jack feito pluma, acompanhando a direção em que os olhos de Joe fitavam, ele compartilhou da perplexidade do irmão. Diante deles, a alguns metros, estava uma forma esguia, humanoide e escurecida, uma sombra. Mas não era apenas uma sombra, aquilo tinha olhos em meio a um rosto disforme longilíneo, eles eram brancos reluzentes como pequenas luas. Joe não se movia, estava tão paralisado que a brisa bateu contra seu chapéu e o derrubou sem que ele se importasse. Como poderia ventar em um dia tão estagnado e seco?

Jack ergueu a pistola, seu choque não o dominou tanto quanto o irmão. Apontou a pistola na direção da aparição e disparou. A bala ricocheteou como se atingisse uma superfície sólida e voltou direto na garganta de Jack, praticamente partindo seu pescoço ao meio. Nesse momento, Joe conseguiu sair do seu torpor e amparou o corpo do irmão. Ele gorgolejava engasgando com o próprio sangue esguichando pela garganta estourada.

- Oh meu deus Jack!, Jack!

Joe gritava e tentava conter o sangue pressionando com as duas mãos, porém, o corpo de Jack chutou o ar e tremeu em seus últimos espasmos até que se aquietou, os olhos semiabertos vidrados no céu limpo de nuvens eram terríveis. Joe poderia jurar que viu a alma do irmão sair através dos olhos quando se tornaram opacos. Apavorado, ele tentou sacar sua própria arma do coldre, mas a mão tremia tanto que não conseguiu desafivelar. Joe olhou na direção da coisa, permanecia parada apenas observando-o. Ele tremia e chorava, o rosto salpicado de sangue do irmão mais velho contrastava com a sua palidez mortífera.

A gargalhada começou como um rosnado, Nick caminhou na direção dos irmãos atravessando a aparição escura que se dissipou ao seu movimento. Aos olhos de Joe, a coisa negra espichada pareceu se fundir ao corpo do pistoleiro. A arma de Nick ainda fumegava. Aquele tiro fatal, aquele que ceifou a vida de Jack, havia saído da pistola de Nick? Joe se perguntava como não o tinham visto ali em frente a eles. Não podia ser, o tiro partira da sombra, da coisa humanoide e densa, Nick não podia ter aparecido ali.

O que mais perturbava Joe eram as risadas de Nick, ele não conseguia parar nem mesmo para ameaçar ou tripudiar do irmão sobrevivente. Joe conseguiu acalmar os nervos e sacou a arma, levantou com o cano da pistola apontado na direção de Nick que aquela altura já tinha guardado o revolver no coldre e apenas ria sem parar, as mãos sobre os joelhos e os olhos apertados derramando lágrimas de comicidade, faziam as mãos de Joe vacilarem em tremores, ele não iria acertá-lo, nem mesmo numa distância tão próxima.

- Cala a boca! Cala sua maldita boca!

Joe berrava, a voz reverberando pelo deserto enquanto a poeira envolvia-os e cobria o cadáver do irmão. O dedo no gatilho estava tremendo, mas Nick não parava de gargalhar, tomava fôlego, tentava se manter ereto, mas o acesso de risos o dominava e a tremedeira de Joe também o desnorteava. Estava prestes a disparar, apenas para fazê-lo parar de rir, quando a sombra ressurgiu atrás de Nick, ainda maior e mais escura. A nuvem de poeira se assentou e Joe vislumbrou o acampamento improvisado de Nick atrás da sua figura patética que gargalhava.

Havia algo estranho próximo aos restos de fogueira. Joe forçou as vistas para checar, era um amontoado de pele humana misturada a cabelos acobreados – como eram os fios de Mary – ele pensou. Joe abaixou a pistola devagar e aproximou daquilo, ignorando Nick que segurava a barriga tentando refrear o riso incontido. Joe cutucou aquele monte nauseante com o bico da bota, era a pele de Mary, inteiriça, como uma pele antiga de serpente. Ele virou os olhos na direção da sombra que pairava sobre Nick.

Lembrou-se da sua infância no rancho seguindo os calcanhares de Jack, do pai ensinando a laçar e domar cavalos selvagens, tocar as ovelhas e sobre o cultivo de hortaliças. Lembrou do irmão repassando para ele os truques da boa pontaria, ensinando-o a respirar, mas Joe não conseguia respirar ali. Estava trêmulo e apavorado, a pistola pesava muito em sua mão a ponto de não conseguir mais erguê-la para atirar. A sombra que se erguia sobre o corpo de Nick tinha os traços suaves e apáticas – como eram os traços no rosto de Mary – ele pensou. Lembrou-se da cunhada quando cuidava da casa, ela que ficava também atrás de Jack fazendo companhia a ele na admiração incondicional pelo homem que o seu irmão mais velho se tornava. Ele tentou dizer algo para a aparição escura como se fosse a própria Mary transfigurada naquilo, mas não podia dizer nada, a voz estava presa em algum lugar da garganta apertada e seca.

A sombra fez um movimento, o braço longilíneo subiu até a têmpora da cabeça espichada e fez um mímica de pistola atirando. Joe sentiu o braço pesado, lutava contra o movimento involuntário que fez ao levantar a mão segurando a pistola até sua própria cabeça e quando a coisa obscura puxou o gatilho em sua pantomima bizarra, o tiro ecoou pelo deserto espalhando os fragmentos de ossos e massa encefálica de Joe pelo chão poeirento. Night-gaunts.

A risada de Nick parou abruptamente, ele se ergueu em sua pose altiva, as roupas negras estavam esbranquiçadas de poeira, desviou dos corpos e seguiu adiante, a pé, desaparecendo na nuvem de areia que seu rastro deixava para trás. Night-gaunts.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 19/03/2019
Alterado em 19/07/2019
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