O absurdo
por Larissa Prado
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O mal encarnado
 
 
“Daqui em diante nós vamos manter o preto e branco”, disse o diretor. Ninguém comentou nada porque não era o tipo de questão negociável.

Eu sabia que seria uma péssima ideia. Preto e branco não funcionaria em filmes de terror numa sociedade ultra digital. Ele queria ser a porra de um Murnau pós-moderno? Ninguém se opôs, nosso diretor ditava as regras, éramos apenas fantoches da sua produção. As filmagens seguiram adiante, “O mal encarnado” levou menos tempo do que foi projetado.

Era uma oportunidade na minha carreira como ator, depois de bons papéis como o bom moço finalmente tinha a oportunidade de interpretar o vilão. Estudei o personagem afundo, me preparei como nunca e senti o frio subir pela espinha a cada tomada como se fosse ainda o ingênuo estudante de teatro dos 15 anos.
 
Karla estava impecável como a protagonista, tinha um jeito arrebatador para viver uma scream queen. Quando ela encarnou a personagem todos do set ficaram de queixo caído. Era como se os roteiristas tivessem escrito aquelas cenas para ela. Em casa, Karla me dizia para ir com calma. Depois de 2 anos de casamento e 5 anos de namoro, ela sabia mais do que ninguém sobre meu perfeccionismo. Tentava me fazer ir para a cama altas hora da madrugada depois que dormia sobre os scripts e estudos do personagem.

- Você está se deixando levar, Oliver. – ela dizia com sua voz doce que se parecia muito com a de Alexia, a personagem do filme. – Está se envolvendo demais com o seu personagem.

- Não estou gostando do resultado das cenas, Karla. Cada dia de filmagem tem sido uma tortura. Todo elenco está impecável, quanto a mim...

- Não seja tão exigente consigo mesmo.

Esses tipos de conversas aconteciam em diversas ocasiões até que no fim, Karla não se importava mais se eu estava me doando demais ou não. Nós tínhamos nos distanciado. Ela passava a maior parte do tempo com o pessoal do elenco, por conta da minha obsessão pelo trabalho, me isolei pouco a pouco do pessoal.

No fim das contas, depois que terminamos as filmagens, não sabia dizer onde começava Phillipe, o psicopata da história e onde terminava Oliver, o ator. Os dois pareciam faces da mesma moeda. Todos seus trejeitos impregnavam-me a personalidade. Karla sugeriu que eu visitasse a nossa terapeuta, era comum fazermos isso sempre que enfrentávamos novas produções que exigissem muito de nossa mente e corpo. Mas eu nunca fui, porque Phillipe não me deixava ir.

Aos poucos, comecei a notar a forma que Karla passava noites fora de casa sem avisar na companhia das amigas e amigos. Na noite de estreia do filme, todo elenco se reuniu na casa do diretor Solano para assistirmos. Eu fui o último a chegar, me sentia indisposto e com uma forte enxaqueca assim como Phillipe, massageava as têmporas e puxava o ar com força para dentro dos pulmões. O pessoal me encarava com um olhar frio e temeroso, não compreendia o motivo.

Eu me sentei longe, nem mesmo da minha esposa queira aproximação. Enquanto tentava compreender o que acontecia dentro de mim percebi a forma que ela se debruçava no colo de Heitor, nosso colega de filmagem, ele tinha interpretado o papel que em outros tempos seria meu naturalmente. Era o bom moço, aquele que havia me eliminado da história. O filme tinha começado, todos degustavam baldes de pipocas e trocavam comentários quando me afastei para ir ao banheiro.

O pacote estava bem amarrado no bolso da jaqueta, tirei minha dose de pó branco e cheirei ali na pia de Solano. O efeito foi imediato e me deu maior clareza sobre mim mesmo. Eu era Oliver e estava prestes a alcançar meu maior papel no cinema com o psicopata  a la Norman Bates, Phillipe.

Ao deixar o banheiro, notei que o papel de parede do corredor estava desmanchando, julguei que era efeito da droga. Algo que nunca tinha acontecido. Toquei a parede e minha mão afundou trespassando tijolos e vigas. Tentei chamar alguém, o nome de Karla pairou por meus lábios e não consegui chama-la. O que saiu foi o nome “Alexia” em uma voz roufenha.

As conversas na sala me guiaram de volta, fui trocando os pés até lá e corri para a cozinha. O estômago girava fazendo a cerveja que tinha tomado em casa descer e subir pelo esôfago.

- Oliver?- olhei na direção da voz, Karla estava ali em pé me encarando, sua imagem ia e vinha, desfocada. – O que está fazendo?

- Alexia?

O sangue esguichou da sua carótida e não era um artifício de maquiagem, era sangue real e não tinha o cheiro doce, ele era vermelho, diferente da imagem preto e branco que estava reproduzida na tela. O sangue real era fino e quente, nada tinha de petróleo como em imagens sem cores.

As vozes silenciaram apesar de todas as bocas abrirem e fecharem aos berros. Um filme mudo. Fui direto para sala golpeando as pessoas. Heitor que não era mais Heitor e, sim, o charmoso bom moço, Christian, por quem Alexia se apaixonara. Eles todos estavam fatiados, o sangue esguichou na tela enquanto “O mal encarnado” reproduzia os gritos em preto e branco de Alexia. Senti as lágrimas descendo por meu rosto enquanto Oliver se encolhia e se perdia dentro do que restara da sua pequena caixa de memórias.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 16/05/2019
Alterado em 19/07/2019
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