O absurdo
por Larissa Prado
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O dia da caça

 
 
1

Quando meu pai falava sobre a morte da minha mãe costumava dizer, “Nós nunca estaremos preparados para perdas, Matteo. Mas a vida segue adiante. Não podemos morrer junto com os que vão embora...”. Naquela última vez que conversaríamos, ele estava limpando as nossas carabinas de caça. Enrico estava sentado ao meu lado prestando atenção a cada movimento que nosso pai fazia. Eu acompanhava nosso pai há mais tempo, Enrico sabia mais sobre as armas do que eu, mesmo sendo 4 anos mais novo. Ele era mais observador, detalhista.

Assim que terminou de arrumar as nossas armas e cartucheiras, o velho nos fez segurar e testar a mira. Enrico afastou-se um pouco e foi se aventurar em testar sua mira em pássaros e em bichos rastejantes pequenos. Fiquei ali parado enquanto meu pai estava distraído com o mapa, apontei na direção de Jaqueline que terminava de descer as malas da caminhonete.

Ela olhou na direção da mira, por um momento meu dedo tremulou na trava do gatilho. Se puxasse aquilo acetaria o centro da sua testa. Prendi a respiração por um momento para estabilizar a visão. Nesse momento, Enrico veio gritando e quebrando minha concentração. Ele alardeou sobre ter visto rastros do animal que tínhamos ido caçar.

- É dos grandes, pai. É um senhor porco!

- Ótimo Rico! Ótimo! Amanhã cedo nós vamos atrás do senhor porco.

Ele tirou o boné e o passou para a cabeça do meu irmão que passou o braço por sua cintura, caminharam na direção de Jaqueline. Fiquei atrás, parado, observando aquela célula familiar da qual não parecia mais fazer parte. Desde que ela chegou em casa, minha mãe nos seus últimos dias de vida, percebi o que queria. Não era apenas a enfermeira que meu pagava para cuidar da minha mãe, ela era a vadia que tomaria seu lugar. Com 8 anos de juventude a mais, Jaque – que era como todos a chamavam – estava disposta a ser herdeira do que meu pai iria deixar. Não era pouca coisa, o patrimônio ultrapassava a casa dos seis zeros.

Nós jantamos uma saborosa carne de panela que Jaqueline preparou no fogão a lenha. O chalé era onde passávamos as temporadas de caça e ficava nas imediações de uma cidadezinha nevoenta chamada Fallvile. Nossa mãe raramente nos acompanhava porque era contra a caça esportiva, o abate de animais por pura diversão. Nos últimos anos, ela estava se empenhando no vegetarianismo o que resultava de longas discussões com o pai, um grande empresário agropecuarista. Acredito que herdei algo da minha mãe em relação aos bichos, apesar de gostar da adrenalina de perseguir a caça, odiava disparar e vê-los sucumbindo. Tentava dar o tiro certeiro para não ter que dar o segundo tiro de misericórdia. Era terrível vê-los gemendo, estrebuchando e sofrendo, mas Enrico adorava. Ele tinha saído uma perfeita cópia do nosso velho.

A noite se arrastou muito silenciosa. Apenas os ruídos da floresta que nos cercava embalava o sono. Era sempre muito gostoso ficar ouvindo as corujas, insetos e bichos dos quais nem sei o nome. Sempre me senti em paz ali, mas daquela vez não foi assim. Sentia comichão dentro da cabeça, o coração parecia feito de chumbo e pesava no peito. Quando escutava Enrico ressonar em seu sono na cama ao lado da minha, eu podia apertar o travesseiro no rosto para abafar o choro. Sentia falta da minha mãe, odiava a nossa nova vida e não via o momento de sair de casa, mas eu tinha apenas 16 anos. Os três anos para minha independência pareciam cada vez mais distantes e de repente vindo de um lugar do pensamento que não sabia existir, comecei a acreditar que não alcançaria os meus sonhados 18 anos.

Provavelmente, nem sequer iríamos voltar para casa depois dessa temporada de férias de verão. Era um tipo de pensamento estranho e desconexo, mais forte ainda era a sensação de que aqueles seriam meus últimos dias ao lado da minha família.

 
2
 
O sol mal tinha aparecido quando o velho nos tirou da cama. Ele estava pronto para caçar, vestindo seu colete de cor berrante, cartucheiras o boné do qual nunca se separava a não ser quando emprestava para Enrico. Senti o cheiro gostoso de café novo invadir o quarto assim que o pai saiu deixando a porta aberta. Escutei ele e Jaqueline conversando na cozinha em tons baixos, amorosos e o estalar de beijos. Meu estômago revirou e o café deixou de ser tão convidativo.

Enrico estava de pé ao lado da cama, e não percebi quando trocou de roupa tamanha foi a rapidez com que fez isso. Ele deu uma olhada na minha direção e esboçou um sorriso animado. Fazia tempo que não o via tão eufórico, ele também sentia falta da nossa mãe, principalmente por ter completado 12 anos no dia que ela deu o último suspiro. Mas Enrico não falava sobre isso, ele desviava a sua tristeza e frustação para outras coisas. Tinha um ânimo imperturbável e uma capacidade de recuperação invejáveis. Conseguia perceber nas maneiras com que tratava a nossa madrasta uma sombra de amor, eles se davam muito bem. Sempre fui o oposto do meu irmão. Não havia espaço para Jaqueline em minha vida, logo estaria livre dela. A sensação se tornou mais forte naquela manhã quando sentamos ao redor da mesa e tomamos o café juntos.

Ela trouxe meu colete de caça devidamente lavado e as cartucheiras. Mais um gesto de paz, uma tentativa de aproximação que sempre me deixava constrangido e perturbado. Agradeci sob os olhares vigilantes do meu pai e de Enrico. Eles ficavam tensos, esperando que a destratasse ou coisa do tipo. Mas consegui evitar, estava tentando ser legal com Jaqueline, pelo menos até onde fosse possível ser legal com uma oportunista.

Nós saímos para perseguir os rastros do porco selvagem que Enrico tinha visto e deixamos Jaqueline cuidando do chalé. Ela ficou em pé na porta acenando enquanto segurava na outra mão sua câmera semiprofissional. Iria dar uma volta e fazer suas fotos da natureza que depois se tornaria um quadro lá em casa. Patética.

Meu pai segurava o mapa e ia à frente, Enrico ficava entre nós dois e corria sempre que notava os passos do meu pai se afastarem. A carabina parecia maior do que ele, mas ele a segurava com confiança e propriedade. A minha descansava no ombro de qualquer jeito, eu não estava tão animado quanto nas últimas temporadas. Era a primeira vez que íamos desde a morte da mãe no ano que acabara.

Por duas vezes, o velho e Enrico pararam para checar algo no chão. Ele cutucava as fezes do porco com um graveto e Enrico dava sua avaliação sobre o tempo que poderiam ter sido evacuadas. Um tédio. Enquanto isso, olhava para as copas das árvores e tentava distinguir quais pássaros faziam balburdia em seus ninhos ou prestava atenção em volta de nós para me certificar que não havia nenhum perigo rastejante ou cheio de pernas. Eu odiava aranhas e cobras.

Nós prosseguimos por um tempo longo e não achamos nenhum sinal do porco. Chegamos a um ponto que os rastros pareciam se repetir.

- Acabamos de passar por essas bostas. – o velho observava o monte de excrementos remexidos por ele.

- Pai, eu acho que deveríamos ir para leste. – Enrico arriscou uma opinião inútil.

Ficamos parados um tempo esperando o velho analisar o mapa. Ele virava e revirava o papel até que por fim o convenci a usar o gps do celular.

- Não tenho celular. Não trouxe. Sabe que não gosto de sair para caçar com celular.

Troquei olhar com Enrico. Nós não levamos os nossos porque ele proibia, mas achava que seria precavido para que no mínimo levasse consigo uma bussola. Em plena era digital era tolice se apoiar em mapas que vendem em lojas de conveniência. Se tivéssemos com o GPS estaríamos no caminho de volta para o chalé. Meu sempre foi muito resistente às tecnologias.

- Eu preferiria estar dando meus tiros em casa, no meu videogame. – comentei enquanto retomávamos a caminhada em círculos.

Ninguém respondeu a essa provocação. Enrico parecia cada vez mais pálido e assustado, e nosso velho demonstrava sua irritação. Ele estava andando de um lado para outro e não checava mais o mapa. Aquelas fezes de porco selvagem a todo momento passavam para nos mostrar que estávamos andando em círculos.

- Como pode ser? Nos perdemos aqui? Um lugar que sempre viemos desde que vocês são bebês! Nunca me perdi. Eu conheço a porcaria dessa mata como a palma da minha mão.

- Então, o senhor não conhece a sua própria mão, pai. Estamos bem ferrados e perdidos e o dia está indo embora.

Ele me repreendeu com um olhar duro e Enrico se encolheu diante aquela carranca. Dei de ombros, não tinha medo do velho, estava tranquilo em relação à nossa situação porque ainda tinha sol suficiente para tentarmos voltar para o chalé.

- Estou sentindo frio, pai... e muito medo. – Enrico choramingou, a sua carabina estava apontada para o chão, parecia desanimada como ele.

- Cale a boca! Não seja um bebê chorão.

Nunca vi o pai falar com o Enrico daquele jeito. Sua frustração estava no ápice, por isso chamei o meu irmão de lado e falei para ficar quieto. Lágrimas generosas se formavam nos cantos dos seus olhos, mas ele fungava para evitar o choro e desviava o olhar para longe de nós.

- É o seguinte, vocês vão me esperar aqui. Ok? Bem aqui, sentados nesse tronco partido. Eu vou me afastar só um pouco seguindo uma dica no mapa. Se escutar o som do rio, estaremos a salvo! Porque é só segui-lo e chegamos atrás do chalé.

Eu concordei, mas Enrico começou a reclamar, lamentar até receber outra bronca do velho e se encolher. Aos poucos vimos o colete berrante sumir entre as árvores e o som do mapa sendo amassado junto.

- Vai ficar tudo bem, cara – eu dei um soquinho no braço do meu irmão. Mas ele olhou para mim com seu semblante pálido e assombrado.

 
3


Quando os últimos raios de Sol incidiram sobre as árvores, comecei a me preocupar de verdade. Até então, tentei conversar com Enrico sobre trivialidades, sobre a escola, a volta às aulas e sobre a menina que ele estava interessado que organizava peças de teatro. Nosso pai não voltou e por mais de dez vezes precisei puxar Enrico para se sentar comigo quando se levantava e começava a gritar por nosso pai.

- Você tem que manter a calma, Enrico – eu dizia de forma muito séria – não pode fazer tanto barulho. Não sabe que bichos escutariam.

- Temos armas. – ele me olhava desafiador, mas a voz traía seu pânico.

Como irmão mais velho, Enrico me olhava esperando alguma solução. Ele queria ir atrás do nosso pai, achei que no fim das contas era a única coisa que poderíamos fazer. Não podíamos ficar ali à noite. Era perigoso e agourento.

Embrenhei pela mata por onde vi o velho seguir com Enrico em meus calcanhares. Ele não parecia se lembrar que estava armado porque sua carabina chocava-se contra suas costas, inerte. Quebrava galhos de árvores com um ar desolado e faminto. Devoramos as todas barras de cerais e chocolates que havíamos levado para passar apenas aquela manhã caçando porcos do mato.

Andamos um bom tempo, a noite estava sobre nós e as formas nas matas começavam a se tornar penumbras. De repente, Enrico soltou um suspiro e parou os passos, vi que ele olhava para o chão e o monte de fezes me fez parar. Entendi a irritação do velho e tentei manter o controle. Estávamos de volta ao início como malditos cães correndo atrás do próprio rabo.

- O que está acontecendo? Caramba! Nós ficamos circulando e circulando. Que bosta! – Enrico quase gritou, mas calou a boca quando ergui a mão e pedi silêncio.

Atrás de nós ouvimos galhos se partindo no chão. A pouca luminosidade nos fez apertar os olhos na tentativa de captar o que estava se movendo.

- Papai? – Enrico perguntou na direção do ruído, mas ficou me olhando, em completo estado de nervos.

Àquela altura, mantinha a carabina destravada apoiada no ombro, meu olho acompanhava os ruídos através da mira. Enrico puxou minha blusa pedindo para ter cuidado porque podia ser o pai. Mas sussurrei para ele que não iria atirar e que o pai estava com o colete de cor berrante. Eu iria atirar apenas se fosse preciso.

As gotículas de suor frio brotavam na minha testa e faziam um trajeto direto aos olhos salgando-os, mas não me perturbei. Mantive a arma estática, a respiração quase suspensa. Os ruídos se tornaram mais próximos, eram passos misturados a uma respiração forte, não conseguia ver nada através da mira. Não podia ser o velho porque ele teria falado algo, e tinha seu colete, eu o teria visto daquela distância.

À medida que os passos se aproximavam, comecei a ver uma forma através das plantas. Algo grande e assombroso que fez calafrios percorrerem minha espinha e as pernas fraquejarem. Se não tivesse aliviado a bexiga minutos antes, com certeza teria feito isso naquele momento. Porque era uma sensação agourenta que aquilo tudo me causou. A coisa se moveu com mais rápida quando percebeu que a mira estava sobre ela, como se tivesse percebido minha intenção.

Pensei em ursos pardos, o homem do pé-grande, lobisomens e todos bichos ameaçadores saídos do folclore ou presentes na natureza. Nós caçávamos porcos selvagens e achávamos perigosos, como eu poderia lidar com algo maior que isso?

Enrico soltou um grito que me desnorteou por um momento. O estampido saiu quando meu dedo escorregou no gatilho. De repente, eu ensurdeci, o coice que a arma deu acertou meu olho me deixando atordoado. Eu nunca errei, se atirasse era para matar, mas o maldito grito do meu irmão fez tudo se tornar caótico.

Ele saiu correndo na direção da coisa, não consegui puxar sua blusa que escapou pelas pontas dos meus dedos. A minha cabeça zunia como se os ouvidos estivessem constipados e a minha visão duplicada. Algo tóxica entrava através da minha respiração, eu me sentia drogado, alucinado, fora de mim. O choro copioso de Enrico me trouxe de volta. Com muito custo, andei meio cambaleante na direção que ele estava chorando.

 
4


Quando afastei os galhos de uma árvore e vi Enrico ajoelhado ao lado de um corpo, minha visão focou apenas naquele cadáver alvejado na garganta. Ela emitia grunhidos agonizantes como uma corsa estrebuchando. Jaqueline jazia com as mãos segurando o pescoço, os olhos arregalados encaravam o rosto de Enrico, estavam confusos e esbugalhados. Foi muito ruim aquilo. Eu a detestava, cheguei a querer vê-la morta algumas vezes, mas naquele momento só conseguia sentir medo e constrangimento.

Eu não tinha simplesmente machucado alguém. Eu tinha acertado um tiro na sua garganta, mas que diabos ela fazia ali no meio da mata àquela hora?
As mãos de Enrico estavam manchadas de sangue que ele pintou os cabelos e o rosto em gesto de desespero. Ele repetia sem parar “olha o que você fez! Olha o que você fez! Maldito!”.

- Por que você atirou nela? – os olhos dele se viraram na minha direção, condenatórios, magoados e aturdidos.

- Foi sem querer, porra! – gritei com ele. Estava perplexo e fora de mim.

As coisas se tornaram irreais como em sonhos. Enrico se tornou apenas uma sombra, o cadáver de olhos aberto de Jaqueline parecia um boneco jogado e desarticulado. E a carabina pesava muito em minhas mãos, mal notava que continuava empunhando-a como se a qualquer momento fosse atirar de novo. Meu irmão se levantou e saiu correndo, sua carabina tinha ficado perto do corpo de Jaqueline. Sem pensar, corri atrás dele e chamei seu nome.

Eu chamei e chamei, mas em algum ponto da corrida perdi o som dos seus passos. Os galhos riscavam meu rosto e chicoteavam abrindo cortes pequenos e ardidos. As lágrimas caíam sem parar deixando meu rosto quente e a respiração constipada. Gritei o nome do meu pai, de Enrico e até da minha mãe morta. Por Deus, eu gritei por todos os nomes de quem já havia conhecido, até mesmo o de Jaqueline.

Parei e me agachei um tempo, as pernas não podiam sustentar o corpo assim como o pescoço não conseguia sustentar a cabeça que pesava. Nunca senti um peso daquele, um sentimento de opressão e morte. A respiração não passava por meus pulmões, achei que fosse sufocar com o choro que ficou engasgado na garganta. Eu escutei meus próprios ruídos de bicho ferido e não pareciam vir de mim. Não queria matá-la, por Deus, aquilo era apenas uma coisa grande e sem forma! Era o pé-grande, um urso pardo enlouquecido, era um lobisomem, mas nunca poderia ser Jaqueline.

Depois de um tempo consegui acalmar minha respiração. Quando fiz isso consegui pensar com mais clareza. Eu tinha cometido um erro fatal, iria pagar por aquilo, mas precisava achar o caminho certo para o chalé, achar Enrico. Precisava começar a reorganizar aquele Caos.

Andei por algum tempo, a lua estava no céu, mas era do tipo suja que mal emite luminosidade. O céu da noite parecia mais escuro do que nunca porque não tinha estrelas. Eu me sentia preso num tipo de dimensão escura onde pessoas eram sombras e estampidos de tiros vinham do meio do breu atingir minha cabeça, costas, pernas e tórax. Por Deus, eu parecia ser atingido a todo momento por câimbras horríveis.

 
5

A atmosfera dentro da mata era lúgubre. Eu nunca soube direito o que queria dizer a palavra “lúgubre” quando lia em histórias antigas e clássicas. Comecei a ler por influência da minha namorada Lydia que me empurrava seus livros góticos. Por causa dela tentei ser mais esperto, inteligente e todo esse tipo de coisa que fazemos para impressionar a primeira namorada. Lúgubre era um tipo de imensa melancolia que a morte evoca, a perda deixa essa tristeza pesada, a sensação de morte e abandono. “O que quer dizer lúgubre?” Lydia me perguntava por que notava que eu marcava a lápis as palavras que não conhecia em seus livros. E eu dizia que não sabia. E ela me explicava daquele jeito intelectual que me fez apaixonar, mas nunca entendia de fato porque só consigo entender as palavras difíceis quando vivencio os seus significados.

Portanto, o lugar era lúgubre e eu me sentia propenso a atos de loucura cada vez que passava pelo monte de fezes do porco selvagem. Estava andando em círculos de novo e aquilo não teria fim. “Eterno Retorno”, Lydia me dizia, “é esse o movimento da nossa vida, um maldito eterno retorno” e voltava com suas leituras existencialistas, seu jeito maduro. Senti falta de Lydia porque sabia que nunca mais nos veríamos, nunca mais ouviríamos The Cure ou Joy Divison nos mesmos fones. Nunca mais daria palpite nas jaquetas e calças que gostava de customizar, ou na sua maquiagem que era pesada demais para a idade. Nunca mais eu ficaria nervoso antes de beijá-la e todas essas besteiras que vivemos aos 16 anos.

Eu me sentia mais velho depois de alvejar Jaqueline, como se minha vida saltasse de repente para os 120 anos. Encarquilhado e desgastado, era assim que me sentia a cada passo pesado e sofrido que dava para formar o mesmo círculo.

Decidi seguir por onde tinha ido procurar o velho, mesmo sabendo que veria o cadáver de Jaqueline ali. Mas para meu completo espanto, ao alcançar aquele ponto, não tinha mais corpo nenhum, apenas as roupas dela com uma camada gosmenta emplastrando tudo. Abaixei e dedilhei o casaco de frio que a vi usar naquela manhã, o fedor da gosma era insuportável e tinha uma viscosidade quente.

Escutei o ruído de galhos partindo atrás de mim e me virei com a carabina empunhada, enxergando através da mira. Os ruídos continuaram até que murmurou o nome de Jaqueline. Os meus olhos estavam bem abertos, mesmo que não quisesse ver o que achava que veria. Minha cabeça me levava para todos filmes, jogos e séries de zumbis que havia consumido. A certeza de que me depararia com uma Jaqueline sorumbática e morta me fez apertar o gatilho na direção do ruído, a fulgaz claridade do disparo me revelou que ao meu redor se movimentavam formas agigantadas e obscuras. Elas sussurravam qualquer coisa ininteligível, as vozes pareciam humanas, mas chiadas.

Falavam de mim, eu sabia por que escutei claramente meu nome por diversas vezes. Dei alguns passos para trás até sentir as costas bater no tronco de árvore.

- Filho?

O colete berrante surgiu na escuridão, o boné dele era inconfundível. Nunca senti tanto alívio em ouvir a voz do meu pai. Abaixei a arma ainda desconfiado, era muito bom para ser verdade. Ele andou com passos incertos na minha direção, notei que forçava os olhos para me enxergar.

- Pai? Pelo amor de Deus, pai? – abaixei a carabina, as gotas de suor frio se tornaram cascatas.

Quando confirmei que aquele era meu pai corri na sua direção e o abracei como jamais havia feito. Afundei o rosto em seu ombro deixando lágrimas rolarem livremente. Foi então, que senti o toque em meus cabelos e a voz de Jaqueline sussurrou ao nosso lado.

- Está tudo bem, Matteo. Está tudo bem agora.

Mas eu tinha atirado nela, eu a vi morrer agonizante em minha frente. Levantei o rosto e afastei do abraço do meu pai. Jaqueline estava ali, os olhos serenos sobre mim e um sorriso apertado nos lábios, Enrico segurava sua mão.

- Matt, eu os chamei – ele me disse, mas de alguma forma aquela voz não parecia a do meu irmão e, sim, de algo antigo e inumano, algo que refletiu um cintilar metálico em seus olhos de membranas reptilianas. – Matt, eu os encontrei!

- Não sinta medo, Matteo. Não podemos morrer junto com aqueles que vão embora, certo? – o velho se aproximou de mim e segurou meu rosto, quando olhei dentro dos olhos vi poços profundos e pálpebras sem cílios.

Jaqueline voltou a tocar meus cabelos e daquela vez senti pegajosos tentáculos penetrarem meus ouvidos causando uma dor inconcebível. A memória saltou para a lembrança da massa gosmenta e fétida que envolvia as roupas que ela usava, o corpo desaparecido e abafando tudo isso o estampido. O tiro fatal, quando eu atirava era para matar.
Larissa Prado
Enviado por Larissa Prado em 01/06/2019
Alterado em 19/07/2019
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